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Avaliações – O Jogo

Avaliações – O Jogo

Juiz Convidado: Antônio “Pop” Sarego

E cá estamos nós para a avaliação e o voto do segundo jogo do FVM2012 da Secular Editora e eu posso dizer com toda certeza que os Seculares foram muito bonzinhos comigo!

Se para a primeira parte dos votos me deram o Cortex pra avaliar, jogo que eu gostei bastante, para a segunda parte da votação, caiu nas minhas mãos “O JOGO”.

E que jogo! ele me ganhou desde o início pela temática, muito original, interessante e inteligente de criar histórias de intriga em um pano de fundo bem sórdido, onde nobres sem ter mais o que fazer, apostam, apostam e apostam!

O jogo começa com uma explicação curtinha mas competente da premissa e do cenário básico do jogo, uma cidade-estado portuária no período da Renascença que goza de excesso de paz.

A nobreza local, sossegada e enfadada pela tranquilidade acaba se dedicando “ao jogo” ou seja, uma espécie de confraria de ricos e poderosos que “apostam” em missões mais ou menos absurdas (mas interessantes) que devem ser exercidas pelos “cumpridores”, ou seja, os pobres jogadores.

O jogo, sessão ou aventura ocorre quando um “desafio” é proposto pelo mentor do jogo aos cumpridores que devem se digladiar pela recompensa, enquanto os mentores (nobres) se divertem com o resultado que os desafios podem apresentar.

Um Cumpridor (personagem) é montado de forma simples e direta. São cinco atributos básicos usados com abstração que evoluem em sete níveis de nulo a lendário e representam os aspectos básicos que conhecemos de jogos mais tradicionais indo de aptidão à compleição, felizmente fugindo da tríade força, destreza e inteligência.

Para complementar a criação do cumpridor escolhe-se um arquétipo dentre os quatro disponibilizados no jogo, homens de armas, especialistas, sábios ou iluminados que ter’ão como funções, delimitar o uso dos atributos e logicamente apresentar uma ferramenta de criar uma história e personalidade para o cumpridor em questão.

É importante destacar que esse processo é simples e indolor. A própria escolha do arquétipo já faz com que você automaticamente vá preenchendo as lacunas na sua cabeça de como o seu cumpridor será ou se comportará.

Complementam a criação do cumpridor a “bolsa” que funciona como uma reserva de emergência para testes, sucessos automáticos ou para chamar pelo seu patrono, ou seja, alguém poderoso que por alguma razão desconhecida dentro do “O Jogo” pode intervir para lhe ajudar e o Ímpeto, uma mistura de força de vontade, pontos de vida e status social que representa sua vontade de continuar na luta e na briga por cumprir suas missões.

Avançando, são gastas pouco mais de três páginas para explicar a resolução de desafios que como esse estilo de jogo pede, é simples direto mas um pouco inventivo, necessitando atenção e intervenção por parte do mestre para determinar com clareza e (uma certa dose de emoção) o resultado dos testes.

Mais uma vez aqui o criador do jogo foi feliz em incrementar a resolução de conflitos com algo que fique além da simples “dificuldade” ou da comparação direta de valores. Por ser um jogo altamente narrativo e de criatividade o tipo de resolução escolhido é um acerto, ao menos na minha avaliação!

Pra finalizar somos apresentados às recompensas que são os objetivos mundanos dos cumpridores ao se tornarem peças do grande Jogo. Moedas que no mundo imaginário do jogo, pode significar o vil metal dados aos pobres manipulados pelos nobres enfadados, mas mecanicamente representam evoluções de atributo, moedas para a bolsa ou qualquer outro uso que o narrador/mestre e o jogador quiserem dar a elas. Seja incrementando a história do personagem, ou adquirindo alguma futura facilidade.

Pra finalizar a minha avaliação os meus votos:

  1. O quão completo é o jogo: “o Jogo”, se apresenta de forma completa e que funciona da maneira em que foi proposta, muito embora careça de uma gordura que o tempo limitado de desenvolvimento não permite ter. Nota 8.5
  2. Uso dos Temas: este é o ponto mais frágil do jogo. Mesmo sendo um “jogão” (eu compraria sem pensar duas vezes. Adorei a temática!) a justificativa do uso dos temas me pareceu em alguns pontos, forçada. Apenas os temas “Esporte” e Luto possuem um referência mais marcada, mas mesmo assim superficialmente. Não gostaria que o autor visse isso de forma à prejudicá-lo já que isso não desabona o jogo como jogo em si, muito embora seja parte inerente da nossa avaliação como juiz. O Jogo é na minha opinião  um dos melhores jogos do FVM2012, mas como temos de avaliar dentro do proposto pelo concurso, sou abrigado a retirar alguns pontos neste quesito. Nota 6.5
  3. Afinidade entre regras e conceito: aqui acho ‘O jogo perfeito”. As interseções entre o ambiente, o objetivo do jogo com o design e as regras se encaixam perfeitamente. Os elementos mecânicos não brigam com a proposta narrativa e as escolhas de design fizeram bastante sentido pra mim, sendo leve e direto, sempre se alinhavando com a narrativa. Nota 9.5

Avaliadores Secular Games

O Jogo de Júlio Matos parte de uma premissa incrivelmente simples e divertida – uma ambientação medieval com toques renascentistas, onde nobres entediados disputam entre si utilizando peões e vassalos, os “Cumpridores” que em outros cenários seriam chamados de aventureiros. Sim, os heróis aqui estão atrás de riqueza, mas eles não a alcançam entrando em masmorras e matando monstros, mas alcançando os objetivos propostos por seus patronos amorais. Na real, só essa proposta já ganhou nossa simpatia!

Além de bem esperta, a proposta de O Jogo é um tanto modular, podendo se passar na cidade portuária de Kant, descrita no livro, ou como uma espécie de mini-cenário em uma ambientação já existente. E as possibilidades aqui são divertidíssimas! Que tal encarnar os Cumpridores em uma disputa suja entre os personagens icônicos de ambientações famosas, ou mesmo utilizar O Jogo para mostrar o outro lado de uma metrópole medieval enquanto os personagens originais dos jogadores se defrontam com as consequências da disputa?

Mas O Jogo se sustenta muito além de sua premissa. O sistema de criação dos Cumpridores é ao mesmo tempo simples e dinâmica, com atributos relativamente abstratos, que são cruzados com quatro arquétipos – Homem de Armas, Especialista, Sábio e Iluminado, cada qual com suas especialidades mecanicamente definidas. Além dos eixos arquétipos x atributos, os personagens de O Jogo contam também com a Bolsa, onde guardam suas moedas, que podem ser gastas durante a sessão para aumentar atributos, ter um sucesso automático em uma rolagem, ou minha utilização favorita: a Intervenção do Patrono, onde o jogador pode gastar uma moeda para narrar um acontecimento específico da história relacionado a intervenção do Patrono, uma espécie de retcon, onde a presença de recursos do patrono podem salvar a pele de seu Cumpridor. Bem divertido!

Os próprios Patronos são uma sacada legal, e os quatro apresentam um histórico breve mas muito interessantes e cheios de lacunas, com suas respectivas áreas de influência na cidade (mercenários, bordeis, ladrões, etc…) e senhas através das quais seus operadores se identificam entre si. Mas o que mais curti na ideia dos Patronos é sua importância como plot device, ou seja, geradores de tramas, que em poucos minutos de jogo podem reunir o grupo e lhes aplicar o desafio em questão. Ideal para um jogo rápido ou em eventos.

A mecânica de resolução é excelente, utilizando ao invés de dados, moedas em um número igual seu atributo. É necessário tirar um determinado número de resultados (cara ou coroa) para ser bem sucedido, podendo sempre recorrer a Bolsa. Simples, eficaz e totalmente dentro do tema. E por falar em temas, é justamente aqui que O Jogo derrapa, e provavelmente perde a chance de ser o jogo vencedor do Concurso Faça Você Mesmo 2012 – dentre os quatro temas, apenas dois (Esporte, e em certa medida o Luto) realmente foram bem utilizados.

Ao ler O Jogo imediatamente me vieram a cabeça duas outras obras, que acredito que podem servir de referência caso o autor queira continuar seu desenvolvimento: O primeiro é o filme Dangerous Liaisons, que trata de jogos de corte parecidos, embora com um enfoque em sexo e sedução, e suas consequências inesperadas; e o excelente RPG Houses of the Blooded do John Wick, que tem como protagonistas os ven, nobres de uma cultura decadente que buscam ampliar seus poderes através do subterfúgio, sedução, intrigas e chantagens. Altamente recomendando!

O Jogo foi uma das melhores surpresas do concurso deste ano, e sem a limitação dos temas certamente poderia ser trabalhado para a publicação, ocupando um espaço até então vago nos jogos nacionais.

 

 

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