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Avaliações FVM2013 – sussurrus

Avaliações FVM2013 – sussurrus

Juiz Convidado: Felipe Shingo

De forma rasa, livros de RPG são, por definição, apenas manuais de instrução. Muitos deles preferem não esconder esta natureza definindo-a diretamente no título do livro. Assim temos centenas de manuais dos monstros, dos planos, das carroças e dos prostibulos.

Após ter rosqueado os pés até o final, você observará que ficará um espaço entre os pés e o fundo do armário. Rosqueie os pés até encostar-se ao fundo armário.

Porém alguns deles preferem desprezar esta natureza de manual de instrução e se tornarem um guia de roteiros. Colocando a narrativa como foco principal e com o texto e as regras do jogo guiando o leitor a criar as suas próprias histórias.  Há também casos onde se vê uma cria alienígena das duas apresentações, onde capítulos são manuais de instruções com um detalhamento técnico preciso e outros são belíssimos contos e dicas de argumento que obrigam o leitor a se desafiar. Um capitula sempre quebrando o outro.

sussurrus de Ricardo Tavares, com “s” minúsculo mesmo para horror dos corretores ortográficos, é um jogo que claramente se encaixa na segunda opção. Um guia de como os jogadores podem criar histórias com este tema comum,                mas apresentado de uma forma sensual.

Acenda a vela, respire profundamente. Comece a concentrar-se nos poderes de proteção, visualize um escudo forte ao seu redor e recite a oração de São Barbelith

sussurrus é um jogo onde os personagens devem enfrentar demônios de outra dimensão, os sussurrus, de modo a resistir os seus maiores desejos e manter a sua alma. Se você preferir pode ver o vídeo de apresentação que o autor gravou aqui. O fundo do tema do jogo é uma releitura do clássico “demônio tenta comprar sua alma”, porém a forma que ele é apresentado contribui muito para que você destorça este seu nariz para o clichê e aproveite a leitura. A forma que Ricardo Tavares apresenta o jogo contribui muito para a percepção de um dos temas principais, Erotismo. O layout  do jogo, com suas letras brancas em um fundo preto, leva você a uma penumbra onde o autor sussurra como você pode construir a sua história neste universo. O texto é sensual.

O segundo tema melhor apresentado no jogo é a subversão, o personagem vive uma luta incessante em não se autodestruir em busca dos seus desejos. Enquanto que o sussurrus luta para fazer com que o personagem se entregue                 em troca do que deseja.

Descasque as batatas e cozinhe até ficarem al dente. Retire toda a polpa das laranjas e corte as cascas em tiras finas

Quando digo se entregar, é de uma forma literal. Uma das mecânicas mais interessantes do jogo é o sussurrus apagar as características presentes na lista do personagem quando um determinado resultado surge nos dados. A lista É o seu personagem. Suas características psicológicas principais e suas relações, apagando estes itens a personagem esta cada vez mais próxima de deixar de ser o que é, podendo ou se entregar totalmente e virar uma casca vazia ou se transformar em um personagem completamente diferente. Particularmente, esta foi a mecânica que eu mais gostei no sussurrus.

A criação da personagem não é será muito surpreendente se você esta acostumado com jogos de narrativa compartilhada com exceção de um pequeno detalhe que quase me passou despercebido na minha primeira leitura. sussurrus se passa na sua cidade. Sim, bem aí em São Paulo, Rio de Janeiro, Coimbra ou naquela cidadezinha no interior de Santa Catarina que eu não me recordo o nome. Isto traz uma identificação profunda com o ambiente do jogo, fazendo com que os jogadores se foquem em construir os personagens e se preocuparem menos como cenário.

Uma coisa é clara em sussurrus, o foco do jogo é a relação entre o personagem e o seu sussurrus e esta dinâmica é muito bem explicitada nas regras. Todos os jogadores na mesa, o jogo não tem um mestre, possuem um personagem para chamar de seu e controlam o sussurrus de outro personagem, interpretando 2 papéis principais. Além disto, temos o Rival do sussurrus e o amigo do personagem. Enquanto o Amigo é um papel muito mais de enriquecimento do background do personagem, o Rival descreve o resultado negativo na rolagem de dados, semelhante a mecânica de Rival do Classroom Deathmatch .

Antes de usar o telefone pela primeira vez, você precisa carregar a bateria  

Um dos maiores pontos fortes de sussurrus é também um dos seus maiores pontos fracos. A voz do jogo. Ela te passa todo o tom do jogo, o clima do ambiente onde o jogo se passa, do tipo de personagem que frequenta este universo e como eles se portam, mas ela não é didática. Provavelmente você irá ler sussurrus mais de uma vez até poder entender completamente como o jogo funciona, além de ter um esforço mental autentico para imaginar a estrutura de uma sessão de jogo.

 Embora espalhado pelo livro estejam sugestões de interpretação para rolagem de dados, elas obviamente não foram retiradas de uma partida real. São rebuscadas, lindas e muito bem escritas. Elas demonstram o que o autor deseja do jogo, que ele seja uma narrativa de desejo e queda profunda e repleta de tons de cinza, mas que podem frustrar um pouco os jogadores pois dificilmente eles chegaram neste nível de narrativa.

A falta de didática não é algo exclusivamente ruim, mas delimita muito bem qual é o foco e o tipo de jogador de sussurrus. Um jogador maduro, notem que eu disse jogadores maduros, não mentes maduras como o jogo sugere. É necessário que os jogadores já tenham experimentado narrativas compartilhadas, jogos de temática adulta e que sejam absorvidos por tudo que o jogo apresenta.

Coloque cerejas sobre o chocolate e na lateral do bolo. Polvilhe com açúcar de confeiteiro sobre o chocolate e, receba os elogios.

Apesar de ter 2 temas muito bem desenvolvidos, Erotismo e Subversão, sussurrus deixa a desejar quanto o tema Dimensões Paralelas. Mesmo o sussurrus sendo um ser de uma dimensão paralela, ele não é bem explorado. É como se ao decorrer do livro os temas Erotismo e Subersão dançassem um balé intricado, onde em cada momento da música os passos de um se destacassem sob os movimentos do outro, sempre se complementando, enquanto que o tema Dimensões Paralelas fosse o nome do balé. Esta lá, é óbvio, mas não faz parte da estrutura principal do jogo.

É interessante notar que a conjunção destes 3 temas é na verdade uma cobertura para o tema real do jogo. Tentação. Sussurrus é um jogo sobre tentação, sobre aqueles que tentam e aqueles que resistem. O pecado esta lá e a todo o momento é jogado na cara do jogador, é como se ele fosse um tratado sobre a nossa culpa judaico-cristã.

Mesmo com estas criticas, sussurrus é um jogo completo. Poucos são os pontos que podem ser melhoradas nele, talvez incluir uma transcrição de uma partida real, algo que cada dia mais eu acho necessário nos story games. A falta de acessibilidade do jogo não pode ser encarada como um problema, uma desvantagem talvez, já que diminui o escopo de jogadores que ele pode ter. sussurrus é como um filme experimental, a obra completa esta lá com toda a proposta do autor, é papel do leitor enfrentar os seus demônios internos para aproveita-la ao seu máximo. Serão todos capazes?

  • Quão completo é o jogo: 9, O jogo é completíssimo, embora pouco didático
  • Uso dos temas: 6  Erotismo, Subversão estão por todos os lugares do jogo. Dimensões Paralelas esta trancafiado dentro daquela sala escura
  • Afinidade entre Regras e Conceito: 9 – As regras estão muito bem integradas com o jogo e passam o tom da narrativa.

Frases para se colocar na contra-capa

“sussurrus de Ricardo Tavares, (…) é um jogo que claramente se encaixa na segunda opção. Um guia de como os jogadores podem criar histórias com este tema comum mas apresentado de uma forma sensual. “ Felipe Shingo

“Mesmo com estas criticas, sussurrus é um jogo completo. Poucas são os pontos que podem ser melhoradas nele (…)” –Felipe Shingo

“sussurrus é como um filme experimental, a obra completa esta lá com toda a proposta do autor, é papel do leitor enfrentar os seus demônios internos para aproveita-la ao seu máximo” – Felipe Shingo

Integrantes da Secular

Eis aqui um jogo lindo. Se os RPG’s possuem uma linguagem autônoma, Ricardo Tavares comprova com este jogo que ele domina a língua. Com maestria, fazendo poesia. A começar com o titulo do jogo: sussurus. Ele pincela, sugerindo com o excelente trocadilho –  súcubos, em um jogo que deve ser jogado assim, sussurrando – o que está por vir. Com uma sutileza, e uma sensibilidade maquiavélica, para tratar das criaturas (demônios?), do erotismo, e até mesmo da subversão, Ricardo toma muitas das decisões significativas de design, de maneira sutil, espalhando-as pela conversa do autor com o leitor no corpo do texto. Por exemplo, durante a passagem:

“É provável que notes nos outros jogadores que ainda não leram este texto a tendência para te quererem entregar muitas destas relações porque acham que tu é que sabes tudo sobre o jogo. Diz-lhes que isto não tem segredos e que tu és um jogador tal como eles.”

Ele diz sem precisar dizer, que este é um jogo GMfull, em que todo mundo é mestre.

Isso deixa a impressão de Ricardo assumiu ele próprio a postura de um sussurrus, para tecer o texto. Ele busca trazer esta conversa para perto, à distancia de um cochicho, localizando a ficção hoje, na sua cidade, na sua vizinhança. Assim, é possível dizer que ele foi ousado. Não pelos temas que aborda, mas justamente por abordá-los tão de perto…

Em se tratando do estilo, a primeira impressão ao termino da leitura, é que o jogo possui uma pegada dos LARPS nórdicos, principalmente o conceito de “play to lose”, em que a maior recompensa é observar a progressiva degradação dos personagens!

“Um jogador controla a sua personagem dizendo o que ela faz, o que ela diz e mesmo o que ela pensa e o que ela quer. Outro jogador desempenha o papel do seu sussurrus controlando todo o ambiente à volta dela: a luz, as sombras, o cheiro das ruas, o barulho dos carros, o sabor do café. Por fim, há outros dois jogadores que controlam a personagem e o sussurrus com os quais existe uma certa relação de amizade e de rivalidade que poderá vir a fazer parte da história.”

Dentro de sua proposta, a distribuição de controle narrativo é sublime. Mesmo existindo a referência a outros jogos existentes (Fiasco, Polaris, etc…) a dinâmica entre os papéis, tanto os diegésicos (dos personagens), quanto os do meta-jogo (dos jogadores, são especialmente coerentes aqui. Outro exemplo:

“(…) sendo que o sussurrus controla aquelas que lhe são indiferentes ou que simplesmente fazem parte do cenário, o amigo controla aquelas que a personagem achar coadjuvantes e o rival do sussurrus controla aquelas que ela veja como antagonistas.”

O mesmo acontece no sistema de resolução. Cada parte fica com a responsabilidade que lhe cabe, de forma significativa na relação, diegética e extra-diegética. Como o rival, que em resultado negativo, narra a cena, e diminui o poder do sussurrus. O sussurrus quando o resultado é neutro, apagando uma característica, metaforizando a desconstrução do personagem. E no positivo, em que o próprio jogador narra a cena, mas reforça a ligação entre ele e seu sussurrus… Esta dinâmica de relações mecanizada como é, representa de forma muito bonita o sentido de cada personagem.

Esta metáfora da desconstrução do personagem é a mecânica de “evolução” do sistema. A progressiva transformação através de novos dados incorporados a lista – representando o domínio da criatura – ou a descendente espiral ao ir perdendo as características da sua personalidade uma a uma, ao ponto de não mais ser.

Mesmo assim este não é um jogo para todos. Este é um jogo para pessoas de sensibilidade aflorada, ousadas, que não temem explorar – de forma segura – alguns aspectos sombrios e latentes de si mesmos. Que entendem o sentido da sedução.
Afinal, este não é um jogo que explora o aspecto visual da ficção, e sim todos os outros sentidos.

Por fim, vale apontar que o maior pecado do jogo (deleitando-me com o trocadilho infame) está na abordagem do tema Dimensões Paralelas. Ela está lá o tempo todo, presente no cenário, mas sente-se a falta de sua amarração mecânica, sob os princípios dos critérios e avaliação. O que reduzirá sua nota, mas não a qualidade do jogo.

Não posso terminar a avaliação sem dizer que este era o jogo que eu esperava ver, quando sugerimos o tema Erotismo. Este é o tipo de jogo, que eu como inventor de jogos, gostaria ter criado.  Não é o caso, eu sei, então ouso me apropriar dele, como se fosse escrito para mim e portanto inevitavelmente vou jogá-lo!

Notas (Eduardo Caetano)

  • Quão completo é o jogo: Nota: 9,5
  • Uso dos temas: Nota: 8
  • Afinidade entre Regras e Conceito: Nota: 9,5

 

2 comentários

  • Muito obrigado pelas vossas avaliações, é sempre um prazer ver um nosso jogo lido e interpretado com esta profundidade.

    Concordo que o tema “Dimensões Paralelas” é o que está mais fraco de entre os três. Acaba por ser mais “Dimensões Ocultas” do que uma realidade que envolva diretamente outras realidades.

    Também é verdade que o texto produzido durante este concurso não está suficientemente completo e integrado para o jogo ser o mais acessível possível. Faltam aquelas frases que façam referência e encadeiem as diferentes partes das regras, algo que só será possível com mais tempo de desenvolvimento e experimentação.

    O desafio em escrever o #sussurrus está na opção de não conduzir ou iluminar demasiado o leitor, pois diferentes pessoas terão diferentes limites do que querem explorar e há temas que precisam de ser abordados de um modo próximo e pessoal por cada grupo. A solução poderá passar por uma grande variedade de exemplos que não condicionem nem sobrecarreguem os jogadores com demasiadas expetativas.

    Mais uma vez obrigado e fico sempre à disposição para ajudar quem quiser experimentar jogar um sussurrus.

  • Opa! Du, me chama para essa partida!