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Resistir é Inútil!

28 jan Artigos | 5 comments
Resistir é Inútil!

O artigo abaixo foi publicado originalmente no Mamute #1. Embora não seja de nosso interesse publicar todas as matérias do Mamute em formato digital, acreditamos que este artigo apresenta de forma concisa a visão da Secular Games acerca da pirataria e das estratégias de comercialização e distribuição de produtos culturais. Na semana que vem discutiremos a pré-venda do livro Busca Final, assim como sua forma de distribuição, e acreditamos que vários elementos deste textos serão abordados novamente.

Por diversas vezes a pirataria foi apontada como uma das maiores ameaças a serem enfrentadas por aqueles que ousarem lançar algo no arriscado e frágil mercado nacional de RPG, ou ainda, até como um dos motivos que levaram a falha de determinado produto. Quando o assunto é a possibilidade de vender livros de RPG no Brasil em formato eletrônico então, o senso comum é devastador, e quase todo mundo aponta a pirataria como o principal obstáculo nesta empreitada, deixando de lado outros fatores –que a meu ver são muito mais importantes para a viabilidade deste tipo de produto, como as quase inexistentes informações sobre o interesse do público neste formato, e um sistema de vendas que seja ao mesmo tempo acessível, fácil e seguro, como existe lá fora através de lojas especializadas como a RPGNow ou e23. Mas independente de todos estes buracos no plano de vender RPG em formato eletrônico (e de maneira geral, qualquer tipo de produto de nicho) no Brasil, convenientemente a pirataria está sempre na ponta da língua como uma das principais possíveis (!) causas de fracasso, ou mesmo da ausência quase absoluta de tentativas, enquanto questões estruturais do mercado de RPG no país são deixadas de lado.

Como um dos fundadores da Secular Games, editora que trabalhou por alguns anos com livros de RPG no formato eletrônico (somente no mercado gringo), inicialmente também nos preocupamos com os efeitos da pirataria sobre as vendas de nossos produtos, embora não de uma maneira histérica. Nos questionávamos sobre quais seriam os efeitos da pirataria sobre uma micro editora de livros de RPG em PDF, e logo nos primeiros meses de operações tivemos algumas respostas.

Todos os livros que nós lançamos foram pirateados. Nosso primeiro produto, o Advanced Character Guide: Arcane Archer alcançou a meta que havíamos estipulado de 100 cópias vendidas em pouco mais de 5 meses no mercado. É, eu sei, não é muita coisa, mas tendo em vista que éramos novatos absolutos no ramo e este era nosso passo inicial, optamos por começar com expectativas baixas, realistas e que pudessem ser alcançadas. Aproximadamente dois meses após seu lançamento o Advanced Character Guide: Arcane Archer foi pirateado. O processo de pirataria com nosso terceiro livro foi muito mais eficiente e o Lines of Legend: Winter Elves podia ser encontrado nas redes de compartilhamento P2P menos de 10 dias após seu lançamento. Mesmo assim, após os mesmos 5 meses e alguns dias também tínhamos vendidos aproximadamente 100 cópias dele, assim como fizemos com o primeiro e segundo lançamentos. Ou seja, se não podemos afirmar que os números de vendas de nossos livros seriam ainda maiores se a pirataria não existisse, podemos dizer com alguma certeza que o fato de um livro ter sido pirateado em dois meses e outro em menos de duas semanas não causou uma redução significativa – na verdade não percebemos redução nenhuma nas vendas do terceiro livro em relação ao primeiro.

Como eu sabia quando os livros da Secular eram disponibilizados em suas versões bucaneiras? Simples, eu baixo livros piratas de RPG desde que comecei a jogar. Então eu falo neste artigo não somente como membro de uma editora de RPG em formato eletrônico, mas também como consumidor, legítimo e pirata, de livros impressos e em formato PDF. E embora minha postura à respeito da pirataria tenha mudado muito desde o meu primeiro xerox do GURPS cabeção roxo até fundar a Secular Games, nunca vi a pirataria de livros de RPG como uma ameaça em tons tão fortes como geralmente é pintada.

Meu ponto de vista atual sobre a pirataria é que ela não pode ser evitada, como a falha generalizada das indústrias da música, cinema e jogos eletrônicos independente dos milhões de dólares investidos anualmente insistem em comprovar;  e portanto, que as razões pelas quais as pessoas baixam um livro, ou qualquer outro produto, são determinantes para lidarmos com a pirataria. Não estamos mais nos ingênuos anos 80, onde a pirataria era algo tão exótico e especializado como o tráfico de órgãos. A idéia de desfrutar de um conteúdo sem necessariamente pagar por ele é cada vez mais presente, e provavelmente até sua mãe ou tia participa deste complexo ciclo de alguma forma. Você pode se esconder debaixo da terra como um zerg, bradar sua alabarda contra qualquer discussão à respeito da pirataria, ou já que ela faz parte de nossa realidade, tentar lidar com ela de alguma forma.

O Interesse do Pirata

Nesta proposta de tentar entender e pensar a pirataria de RPG que categorizei de forma um tanto generalista aqueles que baixam PDFs em quatro tipos ideais, de acordo com o interesse e uso que fazem da cópia pirata, e mais importante, como o processo afeta a relação destas pessoas com o produto original e seus criadores. Pessoalmente considero o esquema a seguir como também uma base para se discutir a pirataria de outros produtos culturais como filmes e quadrinhos, mas respeitando os diferentes formatos de distribuição e mesmo de experiências, vou me deter apenas aos role playing games aqui:

  • O cara que já vai comprar o livro de qualquer jeito: aquele que já tem um grande interesse na linha, cenário, sistema, ou mesmo em um autor específico envolvido na produção do livro. Pode baixar o livro pirata em PDF tanto para dar uma olhada antes de comprar, só para garantir que vive à altura da expectativa, como para usar no computador quando for mestrar ou preparar aventuras (já que a busca no documento eletrônico é muito mais rápida), ou mesmo como um quebra-galho até ter a grana para comprar o produto. No caso do livro original já ser no formato eletrônico (como no caso da Secular Games e de centenas de outras editoras), a compra do produto após baixar a cópia pirata se dá muito mais por um interesse em apoiar aquela editora ou autor e contribuir para que continuem produzindo, do que efetivamente ter acesso a algo que efetivamente ele já tem. De qualquer forma, o essencial aqui é que o ato de baixar o PDF não afeta o interesse do cara em adquirir o livro original, pelo contrário.
  • Aquele que quer ver qual é a do livro: exatamente isso, o cara baixa o livro para ver se o produto realmente vale a pena. Neste caso a pirataria funciona como uma espécie de preview, no qual a compra ou não do produto original vai depender de suas expectativas terem sido alcançadas ou não, despertando assim interesse suficiente para adquiri-lo.
  • O que não quer comprar o livro: vamos ser honestos – todo mundo já baixou um livro que não tinha muito interesse em comprar ou até mesmo de usar. Com o aumento exponencial das velocidades das conexões de internet hoje em dia é mais fácil baixar um pacote com tudo da 3ª edição do Dungeons & Dragons do que pegar um livro na biblioteca da sua cidade, mas na real, nem mesmo os mais fanáticos precisam daquele maldito Dragon Magic. Um tempo atrás comecei a jogar uma campanha no novo World of Darkness, e embora não goste muito da ambientação (e menos ainda do sistema de regras), em uma tarde baixei todos os livros da linha lançados até então, e usei dois deles para criar meu personagem. Foi uma mão na roda, me economizou chegar uma hora mais cedo para montar o personagem com os livros do narrador, mas definitivamente não compraria os livros caso a pirataria não fosse uma opção viável. E olha que isso em um jogo do qual eu estava participando. Imagina no caso daquela coleção de livros de MERP (Middle Earth Role Playing Game) que você tem no seu HD desde que viu a trilogia do Senhor dos Anéis… No fim das contas este tipo de pirata é um cara que não compraria o livro de forma alguma, com ou sem a distribuição ilegal, e que se possui algum interesse no produto é mais para opinar e debatê-lo do que adquiri-lo.
  • Quer o livro mas não tem grana para comprar: definitivamente o mais polêmico dos tipos de comportamentos piratas. Sejamos realistas: o RPG é um hobby cuja parcela considerável de seus jogadores é formada por jovens sem grana. Ok, se hoje você tem reais suficientes para gastar em um zine doidão de RPG, provavelmente não pertence mais a esta fatia do mercado, mas ainda assim, as chances que você tenha adquirido sua primeira Dragão Brasil ou Aventura Fantástica economizando o dinheiro do lanche não são pequenas. Como um nicho composto em boa parte de consumidores sem um grande poder de compra, era de se esperar que a pirataria surja eventualmente como única forma de acesso a um determinado produto. Neste tipo de caso o pirata baixa o jogo porque quer jogar e utilizar a parada, e apesar de seu interesse genuíno no produto, não o compraria independentemente da pirataria existir ou não – afinal ele não tem a grana, pelo menos por enquanto. Até já imagino alguns de vocês me questionando que se o cara tem grana para ter um computador que roda Dragon Age, logicamente ele tem grana para comprar um livro de RPG. Uma novidade para vocês: umas das principais características do papel moeda é sua escassez. Então se o cara escolhe comprar um jogo de PS3 ao invés dos livros básicos da 4ª edição do Dungeons & Dragons, porque ele só tinha grana para um dos dois naquele mês, e resolve baixar os livros de RPG, eu o coloco nesta categoria. O fato do interesse dele ser maior no jogo de PS3 do que no livro de RPG não quer dizer que ele não possa ser um consumidor do segundo. Vai que no mês seguinte não rola nenhum lançamento legal de PS3, e assim ele compra os livros de D&D, ou sei lá, deixa de ser estagiário e tenha um aumento de salário com o qual poderá comprar os livros que leu e gostou em PDF… O lance é: na ocasião em que ele baixa a cópia pirata existe um interesse legítimo no produto, mas seu custo não se adéqua a seu orçamento naquele dado momento.

O lance é que estes são tipos ideais de comportamentos e não de pessoas. Provavelmente todos nós que baixamos livros de RPG em algum momento tivemos um dos quatro comportamentos, algumas vezes de maneira simultânea! Para algumas linhas e sistemas somos o cara super interessado que já vai comprar o livro de qualquer maneira, e para outras somos o que não compraria de jeito nenhum, mas que baixa o pirata só para dar uma sacada e comentar (geralmente mal) sobre o livro. O lance é que como meu camarada Barbi percebeu muito bem, a pirataria pressupõe um mínimo de interesse de quem pirateia. E já que ela não pode ser impedida, cabe as editoras e autores jogarem com este interesse de forma a usarem a pirataria a seu favor, ou pelo menos minimizar seus efeitos.

A pirataria é uma realidade, mas como lidar com ela?

Hora de repetir mais uma vez, desta vez com mais convicção: o ponto central para lidar com a pirataria é entender que ela não pode ser impedida – e os esforços neste sentido ou fracassaram miseravelmente, ou pior, quando funcionaram um pouco ainda assim afetavam muito mais os usuários legítimos que haviam pago pelo produto, como os casos do uso do DRM (digital rights management) tanto pelo iTunes como pela DriveThruRPG, que causaram um belo transtorno aos compradores que formataram ou mudaram de computadores, do que efetivamente aos piratas. Muito mais produtivo do que tentar impedir a pirataria, algo que nem a toda poderosa RIAA conseguiu, é entender que ela faz parte da internet, e que desta forma não faz sentido tratá-la à partir de um ponto de vista moralizante e excludente, mas simplesmente como uma possibilidade de divulgação, ou no pior dos casos, como uma concorrente ao seu negócio.

Partindo então do pressuposto que os esforços para impedir a pirataria são tão eficazes quanto enxugar cubos de gelo com um rolo de papel higiênico, o que pode ser feito em relação a pirataria? Um bocado de coisas na verdade. A primeira delas é olhar a questão sobre outro ponto de vista. Durante muito tempo as empresas consideraram cada download ilegal de um de seus produtos como uma venda perdida. Se as quatro categorias de motivações que listei anteriormente estiverem mais ou menos corretas (e acho que elas são bem razoáveis e abrangentes para a maioria das pessoas que usa a internet), um download pirata não significa necessariamente uma venda perdida – na verdade apenas o cara que não tem a grana (eu sei, isso é discutível) mas que tem interesse em seu produto é uma venda perdida para o download ilegal. Boa parte dos downloads piratas são feitos por pessoas que antes de baixar o arquivo já estão decididos em comprar ou não o produto original, e em relação a estes não há muito a ser feito. Mas aqueles que baixam a cópia ilegal para sacarem qual é a do livro, com estes sim a pirataria pode ser usada a favor da empresa. Se ela for esperta é claro.

Mais do que culpar a pirataria pelas baixas vendas, ou se cercar de medidas histéricas de baixa eficácia, partindo de um pressuposto das vendas perdidas, é melhor usar a pirataria a seu favor. Se seu produto possuir qualidade, quanto mais pessoas tiverem contato com ele melhor não é? E não me venha com este papo da ilegalidade, ou mesmo imoralidade, estamos falando do mundo real aqui. A pirataria existe. Você pode lutar contra ela, e inevitavelmente perder e chorar, ou tentar se aproveitar dela, como fizeram os caras do Steam, plataforma de venda de jogos eletrônicos criada pela Valve. Segundo eles, ao perceberem que a pirataria dos seus jogos era inevitável, decidiram tomar dois rumos de ação: tornar seus jogos mais acessíveis (menor preço, principalmente através da compra por download dos jogos, sem uma cópia física) e oferecendo algo que os piratas não podiam dar (multiplayer decente, brindes e  outras ferramentas). Ou seja, trataram os piratas não só como concorrência, mas também partindo de um pressuposto que o jogador poderia baixar o jogo pirata, jogar o single player, e depois comprar o jogo original para ter acesso a experiência completa, muitas vezes oferecida pelo multiplayer. Independente das grandes diferenças entre os mercados de videogames e RPG, o importante aqui é que eles introduziram a pirataria em sua estratégia de mercado, ao invés de só a demonizarem. E o resultado? O Steam é considerado o melhor sistema de venda de jogos eletrônicos do mundo atualmente…

O lado positivo da pirataria é que ela espalha sua marca, seu nome e seu produto sem nenhum esforço de sua parte. Cabe então a empresa que pretende usá-la a seu favor a tarefa de tornar o produto original ainda mais interessante que o pirata. Uma das formas mais fáceis de se fazer isso é a fórmula de oferecer extras, muito comum no já citado mercado dos videogames, com suas redes sociais de multiplayer. Com alguma criatividade por ser feito também com jogos de RPG, aliás cada vez mais editoras adotam medidas bacanas e espertas como oferecer uma versão em PDF gratuita para o comprador do livro físico ou playtests exclusivos para compradores costumeiros de pré-vendas. Mas se oferecer material extra é mais difícil nos RPG do que nos videogames, o nosso micro nicho do RPG tem uma facilidade: a criação de uma comunidade.

O RPG é um mercado de nicho, especialmente no Brasil – poucos consumidores, poucos produtos, poucas empresas. Se é que isso tem um lado bom, é a facilidade de ter acesso e dialogar com seu autor favorito, opinar no lançamento das editoras, ter seu produto de fã, blog, lista de discussão sobre o jogo lido e comentado pelo criador do seu RPG favorito. A idéia de não ser somente um comprador, mas de pertencer a uma comunidade. E isso o RPG faz muito bem. Quando você constrói uma comunidade ao redor de seu jogo, sistema ou editora, você aumenta o interesse das pessoas sobre seus produtos e seu trabalho. Você está se lembrando que a pirataria pressupõe interesse certo? A comunidade amplia este interesse, coloca o cara que baixou o livro em contato com o autor, que responde as suas dúvidas no fórum, comenta a classe que ele mandou na lista de discussão. Esta comunidade trás uma série de benefícios para a editora ou autor: por ela é possível descobrir colaboradores, playtesters, ter um grande feedback e divulgação de seus produtos, através de uma espécie de boca a boca fomentado. E uma das coisas mais legais que eu acredito que uma comunidade coesa faça é incentivar o cara que baixou o material pirata a comprar o produto original, não porque a pirataria é errada, imoral ou o que o valha, mas porque ele quer contribuir com a comunidade de volta, e faz isso suportando quem produz material.

O compartilhamento maciço já faz parte da realidade de todos, presente na vida não só dos hackers e nerds de plantão à pelo menos 10 anos graças aos soulseeks, audio galaxies, napsters, IRCs, emules e torrents da vida. Se lutar contra essa realidade fosse uma solução viável, já deveríamos ter visto algum resultado. Mas pelo contrário, os métodos de compartilhamento só se tornam mais acessíveis e sofisticados. Lutar contra a pirataria é tentar encaixar a nossa realidade fluída e mutável em um modelo obsoleto e limitado, apenas para que a maior parte do mercado possa lidar com ela. Concorrer com a pirataria é mais inteligente, já que te faz olhar para o que você pode fazer para acompanhar as mudanças. Usar a pirataria a seu favor, é tentar jogar dentro destes novos formatos, alterar não só seus produtos, mas a forma de vendê-los e apresentá-los. Afinal a realidade não vai se adequar as regras das editoras de RPG.

 

5 comentários

  • Isso aí, é um excelente artigo. Se preocupar com a pirataria é desnecessário, até mesmo por que um individuo vai lá e faz o scan do livro e posta nos 4shared da vida… Tem que saber usar a se favor.

  • Tek disse:

    Além do “Quer o livro mas não tem grana para comprar” também existe (e imagino que em maior quantidade) o “Quer o livro mas não vai gastar grana nisso”, justamente porque tem o pensamento de “para que pagar se posso ter de graça”.
    Esse tipo de gente costuma fazer parte da “comunidade” e geralmente reclama de preços, mas na hora de retribuir (como o artigo comenta) ele não faz nada.

  • Fabio Melo disse:

    Eu baixo alguns livros por conta do acesso. Tanto que quando eu sei onde comprar, eu não baixo. Por exemplo, eu comprei o Legend of the five rings pq eu consegui comprar sem precisar ter cartão internacional
    E pirataria de livro é ainda muito penosa, uma vez que os arquivos são grandes e as tablets para nao ter que ler no pc ainda são caras.

  • Helton dos Santos disse:

    Muito bom este artigo, um dos melhores que li sobre o assunto. (pertenço a 4 destas 4 categorias!!!)

  • […] para isso, recomendo dar uma lida numa postagem bem interessante da Secular Games, um grupo que se meteu num trabalho perigoso e caótico… A produção de […]