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Conhecendo o Jogo de Narrativa Busca Final

Conhecendo o Jogo de Narrativa Busca Final

Este texto foi publicado originalmente no Mamute #01, e tem como objetivo apresentar um pouco da proposta do Busca Final. Nas próximas semanas colocaremos mais detalhes sobre sua mecânica, layout e outras novidades!

Você está cansado, com fome e, certamente, muito abatido. Há dias você e seus companheiros não enxergam um traço de civilização, enquanto seguem pela região mais selvagem da Antura, uma terra de inimigos. O Dûk que dirige os rumos da companhia não parece estar muito melhor, o que te deixa abalado e, você gostaria mesmo de poder confessar, um pouco desconfiado.

Confiança. Uma palavra que descreve o estado de espírito que um daqueles chamados guerreiros errantes deve ter. Um dia, já faz algum tempo, Othora sofreu com a Grande Perda, e tudo o que é mágico e maravilhoso simplesmente desapareceu do mundo. Os magos de sua terra natal não possuem mais o que explorar, conhecer e proteger, e pouco fazem além de nutrir jogos de poder infrutíferos, que não salvarão sua amada Manthilus das armas de Antura, quando o dia da glória derradeira chegar.

Confiança. Confiar que esta busca, uma última busca, poderá ser bem sucedida, e a companhia descobrirá o que aconteceu com Othora, e por que a magia se foi. Você sempre acreditou que era possível, mas os meses empurraram sua convicção da condição de muralha inabalável à triste situação onde você agora se encontra, desconfiando até mesmo da capacidade do Dûk de liderar a companhia para o sucesso.

Tudo por causa da confiança. Alguns dizem que você escolhe ser um guerreiro errante, mas você sabe que isso não é verdade. Você não era nem mesmo nascido quando o mundo viu a Grande Perda, mas alguma coisa sempre te impulsionou a acreditar que, em algum lugar, havia uma resposta, pois não há mal que dure eternamente, e seu belo reino já foi castigado demais, durante tempo demais. Ainda assim, a fome aperta o cansaço domina e você se perde em seus pensamentos, se perguntando até quando confiar.

Busca Final é um jogo de narrativa épica, onde o narrador e os demais jogadores, que assumem o papel de protagonistas da história, forjam em conjunto uma grande saga, na qual indivíduos de fé e convicção se encontram ou finalmente se perdem, na questão essencial do continente fictício de Othora: o que aconteceu com a magia do mundo?

Na verdade, minha idéia era criar um jogo cuja idéia central fosse a busca dos heróis, pelo que quer que fosse. Nesse sentido, Busca poderia ser um jogo sobre os cavaleiros de Artur em busca do cálice sagrado, ou até mesmo sobre a comitiva do anel se esgueirando pela Terra Média para destruir o mais poderoso dos artefatos de Sauron. Seriam duas escolhas válidas e igualmente interessantes, mas ainda melhor foi a escolha de criar meu próprio cenário e meu próprio tema.

Othora seria um mundo de fantasia como qualquer outro visto em um livro de Dungeons & Dragons. Magos e clérigos, elfos e anões, anjos, demônios, criaturas elementais e todo o resto. Minha idéia é que, antes da Grande Perda, esse lugar é um legítimo reservatório de tudo o que vemos na fantasia clássica. Eu disse, no entanto, que tudo isso é antes da Grande Perda.

A Grande Perda, como os habitantes de Othora chamam o fenômeno, é o verdadeiro desaparecimento de tudo que existia de místico e mágico no mundo. Desde os magos perdendo seus poderes até elfos e suas cidades desaparecendo na névoa do tempo, tudo o que poderia ser entendido como fantástico no continente simplesmente desaparece. Othora se torna um mundo tão pálido e sem graça quanto o nosso, com uma diferença importante: a magia já existiu, e as pessoas ainda se lembram.

Decididos a entender o que aconteceu, e prontos para reverter o que quer que seja, os jogadores incorporam os guerreiros errantes, organizados em companhias, que caminham pelo mundo em busca de uma resposta, embora não saibam como e onde começar.

A idéia que concebi é que, à medida que o jogo avança, o guerreiro errante passa por várias experiências que chamei de confrontos, que aumentam ou diminuem sua convicção. O jogador chega ao fim do jogo quando a personagem já não tem mais convicção para continuar, abandonando a busca, ou quando sua convicção e conhecimento atingem o limite, permitindo a ele uma oportunidade de, obtendo sucesso, vislumbrar a verdade por trás do desaparecimento da magia de Othora. Se estiver nos planos do narrador, ele pode até mesmo ser bem sucedido, e trazer a magia de volta!

Busca Final é fruto da minha visão do RPG como um jogo de narrativa compartilhada. Acredito que a glória dessa forma inusitada de diversão está justamente em se permitir, junto com os amigos, criar o que poderia ao final ser considerado uma boa história. Como jogo, concebi Busca Final de forma a ser totalmente voltado para a criação e condução de boas histórias. A mecânica básica (utilizando as cartas de um baralho comum) serve a esse objetivo, assim como o restante da construção do sistema.

Ao invés de atributos concretos como Força e Agilidade, optei pela abstração de elementos como Convicção ou Presença, graduados sem qualquer compromisso, a priori, de designarem algo que o jogador possa analisar objetivamente. A promiscuidade entre ambientação e sistema só não é maior por falta de espaço; se me permitem dizer, não acho que o sistema que elaborei junto com o Garrell sirva pra jogar qualquer coisa que não seja nosso jogo!*

Finalmente, vocês vão observar que Busca Final não tem “crunchy bits”, ou seja, nada de dons, disciplinas, talentos, classes de prestígio ou qualquer outra coisa parecida! As personagens só são diferentes uns dos outros nas cartas que recebem do destino e na construção narrativa promovida por cada jogador. Jogar muitas sessões não vai tornar ninguém melhor cavalgando, atirando com o arco ou lutando com a espada…

Aqueles que se interessarem vão ter a oportunidade de aprender muito mais sobre aquilo que propusemos com esse pequeno jogo de narrativa. Assim, não dá pra falar muito mais sem estragar a diversão que virá dentro de alguns meses. Espero, no entanto, pelo menos ter despertado a curiosidade de vocês pelo jogo. Confiem em mim quando digo que, em termos do que estamos acostumados a jogar, será, no mínimo, bastante inusitado!

* Embora eu tenha ficado com o momento de transpiração, ou seja, escrever o jogo, a inspiração não é só minha. São várias pessoas, as mesmas que fazem o Mamute acontecer, revisando e opinando o tempo inteiro, e o Richard Garrell está ainda mais envolvido, viajando junto comigo nas idéias tanto de cenário quando de sistema, ambos regados com bastante cerveja, é lógico!

 

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